Quando abro a janela e vejo o mar revolto
Nuvens negras de raiva
Areia voando em remoinho
E pessoas fugindo do tempo
Esse que me mente constantemente
Na casa da democracia
Quem diria
Este meu País
Que sempre o quis
Me engana
Me destrói
Como caixa esburacada
Onde não fica nada
Vendem tudo o que não têm
E mais alguma coisa que sonham
Para bem da sua família
E tudo o demais é restolho
Olho novamente através da vidraça
Que não me deixa ver a praça
Onde a água vai chegando
Devagar fora do seu leito
Mas a preceito
Limpando o que resta
Pobre povo que acredita
Nos slogans dos trapaceiros
E eu aqui olhando o firmamento
Com algum desalento
Pelos meus companheiros
Que não sendo alcaides
Nem tendo pinheiros
São fazedores de contos
Viajando nos sonhos
Nas almas perdidas
Que estavam bem definidas
Quando crianças
Era noite
As luzes se acendiam lentamente
O candeeiro a petróleo
Tomava conta da sala
E lá longe ouvia-se o sino a tocar
Dava as horas certas e outras tantas
Entre meio
Na cama de penas me escondia
Onde ninguém me via
No alto do meu castelo
Bem perto do fontenário
Levava a bilha à cabeça e pela mão
Me segurava
E mais dois dedos de conversa
Ali estava
Era o jornal do dia
Por momentos tudo sorria
Voltávamos a casa
E com púcara de barro
Eu bebia essa água
Que ainda estava fria
Arregaçava as calças
Descalçava os sapatos
E corria
Em direção aos amigos
Que brincávamos todos os dias
Faça sol faça frio
Com canas e velas
Apanhávamos morcegos
E terminava o dia
Da mesma forma que tinha começado
Quando acordava
Todo tapadinho
Na minha cama de penas
Bem aconchegadinho
Foram tempos
De menino
Que não vão voltar
Por isso continuo a sonhar