Quando a alma aprende a escolher a paz… 🤍
Às vezes, não é por deixarmos de sentir
que chegamos às margens silenciosas da indiferença…
É precisamente porque sentimos demais.
Porque fomos marés a abraçar praias que nunca souberam acolher-nos…
Porque derramamos oceanos de ternura em terras que permaneceram desertas…
Porque acendemos estrelas em céus que nunca reconheceram a nossa luz…
E, sem darmos conta, fomos ficando
vazios de tanto transbordar pelos outros.
Há um cansaço que não mora no corpo…
Mora nos recantos mais profundos da alma.
É o peso das palavras engolidas, das lágrimas que aprenderam a cair em
silêncio, das esperanças que morreram lentamente à espera de uma primavera que
nunca chegou…
É o desgaste de sermos abrigo para
tantas tempestades, enquanto o nosso próprio coração ficava entregue à chuva.
Até que um dia… algo dentro de nós se
aquieta.
Não há trovões, nem despedidas ruidosas.
Não há portas batidas, nem palavras lançadas ao vento.
Há apenas um silêncio diferente…
Um silêncio que já não dói.
Uma serenidade que nasce, delicadamente, sobre as cinzas de tudo aquilo que um
dia nos consumiu.
E deixamos de culpar…
Porque compreendemos que nem todas as feridas precisam de encontrar um culpado
para poderem cicatrizar.
Deixamos de esperar…
Porque aprendemos que nenhuma flor deve passar a vida inteira à espera de chuva
num deserto.
Deixamos de insistir…
Porque até os rios, quando encontram demasiadas pedras, aprendem a procurar
outros caminhos.
E deixamos de tentar reconstruir pontes
que só nós atravessávamos, de regar jardins onde apenas cresciam ausências, de
procurar calor em lugares onde o inverno parecia eterno…
Não é frieza.
Não é orgulho.
Muito menos crueldade.
É a alma a recolher as suas asas depois
de tantas vezes as ter ferido ao tentar voar por quem nunca quis sair do chão.
É o coração a fechar, com delicadeza, as
janelas por onde entravam ventos que lhe roubavam a paz.
É compreender que nem todas as batalhas
merecem o sangue dos nossos sonhos… e que nem todas as histórias precisam de
continuar para terem tido significado.
Porque há silêncios que são despedidas…
Mas também há silêncios que são renascimentos.
Há distâncias que não são abandono…
São caminhos de regresso à nossa própria essência.
E há uma indiferença que não nasce da
ausência de sentimentos, mas da exaustão de um coração que amou, esperou,
perdoou e resistiu muito para além das suas forças.
Até que, finalmente, escolheu descansar…
E talvez a mais bela forma de
amor-próprio seja esta: deixar de oferecer a nossa luz a quem apenas nos
devolve sombras.
Não é que tenhamos deixado de sentir…
É que aprendemos a não morrer um pouco por dentro de cada vez que sentimos.
Não é que o amor tenha desaparecido…
É que, depois de tantas tempestades, descobrimos que também merecemos ser
porto, e não apenas barco à deriva.
E assim, sem rancor, sem revolta, sem
necessidade de explicações, deixamos partir aquilo que já não floresce
connosco.
Porque, às vezes, a indiferença não é o
inverno do coração…
É a primeira brisa de uma primavera que começa dentro de nós.
E aquilo que parecia ser o fim de todos
os sentimentos revela-se, afinal, o mais belo dos recomeços…
O instante sagrado em que deixamos de
nos perder nos outros… para, finalmente, voltarmos a encontrar-nos em nós
mesmos. 🤍