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sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Grito

 



Sem olhar para outro lado

Na madrugada fria de inverno

Embrulhado em cobertores

Para não sentir as minhas dores

 

Mas fixo o teu olhar por momentos

E deixo-me navegar nas tuas águas

Nem por nada sinto os sofrimentos

Somente os dias belos sem mágoas

 

Queria voltar a subir de olhos fechados

Segurando a certeza firme das tuas mãos

Depois na varanda bem aconchegados

Vendo como brincam os irmãos

 

Na distância deste sonho perdido

Da viagem que há muito programada

Quem sabe se esse é o nosso destino

Sonhar e estar ao lado da pessoa amada

 

Não sou barqueiro nem barco tenho

Sou sonhador de palavras e música

Vamos amealhando algum dinheiro

E festas algumas por vezes muito lúdicas

 

 

Os sinos dobram anunciando a partida

Da procissão que sai do átrio

Ao dobrar da esquina fica retida

A senhora que chora ali no pátio

 

Perdeu o seu ente querido

Lágrimas secas de tanto chorar

Perdeu a vida estava muito ferido

De uma guerra que não vai parar

 

Assim segue o padre pelas ruas da aldeia

Cantando e rezando pelos filhos da terra

As gentes essas que seguem em alcateia

Rezam bem alto que se ouve lá serra

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

NA PRAÇA

 

Foto de Dilita - Blogue Renda de Birras

NA PRAÇA

 

De fronte da grande casa

Sentado nos bancos frios

Vendo a passarada a dar à asa

Para lá onde se juntam os rios

 

Rio velho e rio novo e uma vala desaparecida

Uma terra sem gente uma terra adormecida

 

Mal pintada calçada bonita

Nem o cheiro das espigas

Nas vestes das suas gentes

Nem sorrisos de criança

Que brincavam em roda-viva

 

Outros tempos de pobreza

De calças arremedadas

Da chieira da carroça

Do barqueiro atarefado

 

Nesse rio de águas transparentes

Da pesca com o tresmalho

Passando no fundo bem rentes

Gritando para lá da Barca ao Ramalho

 

E ficou-me na retina

A pasteleira a rodar

Onde se aprendia andar

Com grande dificuldade

As luzes acendiam-se e a correr

Subíamos a viela

Porque lá do alto da janela

Tudo ela vigiava

Era Montemor mesmo que não fosse Maior





quarta-feira, 2 de novembro de 2022

CARLA

 


Viajei de lés a lés e encontrei o meu rio

Lá do alto o castelo vigiando o povoado

Depois ao cair da noite tudo fica sombrio

E pela manhã reaparece tudo enevoado


O poço da cal com as suas águas calmas

Peixe que salta com muita alegria

Juntos aqui todos batemos palmas

E em nada esta noite está fria


Jovem que jovem era de mil flores

Sorriso afável de presença bonita

Por vezes no sofá abafando a suas dores

Aqui escutando esta música catita


Para ti do reino dos Algarves

Da distância que nos liga

Um beijo para que melhores

Para que tua vida siga


quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Quase Doutor

 


Podia ter sido tanta coisa e coisa nenhuma

Os sonhos que ganhei pela minha liberdade

As estradas que descobri pela aventura

Memórias que tenho vivido com a idade

 

Sorrio aqui sentado no silêncio da escuridão

E recordo tantas loucuras sem telemóvel

Outras tantas travessuras quase caio no chão

Vivi dentro do meu mundo e longe de tudo

Agora já é tarde, mas continuou a sonhar

Com o brilho do rio visto da ponte

Com o cantar da passarada na alvorada

Ali estava eu encostado a ver nascer o sol

Sim porque era quase madrugada

Fui quase doutor contei tantas vezes aquelas escadas

Comi na cantina à beira da estrada

Dormi aqui e ali sem me preocupar

Viajei de pé e deitado nos combóis da noite

Cantei o hino dezenas de vezes

Voei em caças, helicópteros e outras aeronaves

Tive bicicleta skate e outras rodas

Percorri este nosso Portugal de lés a lés

Centro – Beira – Trás-os-Montes- Alentejo e Algarve

Quase marinheiro em dias de agonia

Basquetebol, Badminton, ping-pong, futebol e pesca

Voleibol em terrenos de Bombeiros

E visitei outros Outeiros

Apanha da pera e da maça

Da vindima à laranja

Da Oliva a plantar pinheiros

Só faltou mesmo alguns sobreiros

E aqui estou eu sentado sorrindo

Para um país preocupado com as incompatibilidades

Eu diria muitas habilidades

A luz a subir

O pão a ficar mais caro

A gasolina em flecha

Vamos voltar à vela

Que nos salve a oração

Que anda pelas horas da amargura

Há que esfregar bem o chão

Maternidades a fechar

Bancos a roubar

Políticos a zarpar

E a justiça ajudar

Onde vamos parar

Com esta confusão

Com a guerra à porta

E não temos mão

Oferecemos aeronaves que não voam

Pedimos dinheiro para alguns

Os sinos esses que já soam

O FMI está aí

Sem bater à porta entra de roupão

Leva-nos tudo até o coração

Volto à terra e sorrio

Afinal nada disto é novo

O filme já passou

Fui quase doutor…

quarta-feira, 12 de outubro de 2022

Quase Soneto



Canto um soneto amargurado

De trotinete fechada na mão

Gelado de chocolate preto

Quase que o deixava cair no chão

 

Mas sabem como era gostoso

Me esforcei para o deliciar

E pela estrada foi mui pomposo

Sorria para mim e para o ar

 

Gostava de saber escrever sonetos

Nestes dias difíceis da minha vida

Que tardam em chegar os meus netos

 

Se houver para terras do Norte

Fico feliz por eles e por mim

Que um dia decerto vou ter sorte


48 anos depois

 


Escrevi uma carta que a fechei numa gaveta

Onde palavras soltas me vieram à memória

Para alguém um dia a possa atirar na sarjeta

E assim eu me sentir nos meus dias de glória

 

Tentei lembrar-me de bons momentos

Dessa juventude agitada adolescência

Que se vive após a revolução

Do meu coração

No fim do mundo

 

Frio foi logo o que me veio à memória

Entre o branco e calçada escorregadia

Um grito duma senhora em agonia

Nesse dia de tanta mudança e alegria

 

“Aí meu deus rios de sangue para lados de Lisboa”

E com a mão segurando o seu lenço na cabeça

Subia a estrada até lá arriba ao pé do Cabanelas

Onde outros tantos vinham ver o que se passava à janela

 

De pasta na mão dirigi-me ao Liceu

Segui o trilho de outros dias

Ali mesmo junto ao quartel

Onde tudo estava em alvoroço e escondido

Em trincheiras feitas na hora

Esperando que alguém lhes dissesse  

Terminou agonia

Ganhamos nem sei bem o que

Era quinta não houve aulas

Viemos para praça gritar

Liberdade

Grito

  Sem olhar para outro lado Na madrugada fria de inverno Embrulhado em cobertores Para não sentir as minhas dores   Mas fixo o t...