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terça-feira, 8 de março de 2022

Frio da Terra Nova

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Do documentário "Faina maior, a pesca do bacalhau". RTP/ Garden Films, http://ensina.rtp.pt/artigo/faina-maior-pesca-bacalhau/

Olhar negro de tão negro que é

A vida dura da pesca

Seja de barco ou mesmo a pé

 

Perdi as horas dias e anos

Que por aqui andei sem me lembrar

Dos barcos que partiam com os seus panos

 

Levavam à partida a saudade

Da família que deixavam

Alguns de berço outro na mocidade

 

No horizonte preparavam os aparelhos

Reparavam os dóris

E ouviam os mais velhos

 

Fumavam o seu cachimbo

E habituavam-se ao sino

Estavam entregues ao destino

 

O mestre dava ordem de baixar

Não antes de sortear

Não fosse dar azar

 

Eram horas e horas de solidão

Na luta com esse mar gelado

Nem gaivotas voavam

 

Era eu só com o meu Deus

Quem sabe qual deles

E o meu perdão

Mulher Esposa e Mãe

Sinto-me como se estivesse no regaço de minha mãe

Sentindo cada chinelada como um beijo que me dava

Que por vezes só ela chorava

Partiu mas deixou-me o seu olhar da vida

As dificuldades sofridas

E o querer vencer

 

Mesmo nas dificuldades que foram muitas

Me tapava com cobertor quentinho

Dava-me um beijo antes de partir

Bem cedo pela borda do campo e eu sonhava

Na areia fina da espuma do mar

E esse cheiro a maresia que ali havia

 

Como era lindo este mar bravo

Para mim na minha paz era calmo

Segui-a os barcos com o olhar

E ali de fronte lançando os aparelhos

Era faina que dava suores e muitas alegrias quando havia

Encostada na barca na areia esperava sem canseira a mulher

 

Que partia bem cedo de canastra na cabeça

Para um mercado da sua vida

Subia e descia a rua apregoando a sardinha fresquinha

Era mulher esposa e mãe

Tudo junto para quem tem

Um sorriso de sofrimento nesse momento

 

Era gente que na dureza do trabalho

Ainda tinha vontade de cantar

Lavar e de lutar

De lenço tricolor quando o homem estava em casa

Que logo virava a negro na despedida

De uma lágrima que sempre caía

 

Com o seu filho ao colo e outro ali ao lado

E mais abaixo o mais velho com ar de patrão

Numa casa onde faltava tudo até o pão

Vida dura esta de mulher esposa e mãe

Bendito seja para quem ainda a têm

 

O sino toca na igreja da vila

O vento assobia e a chuva a chegar

Nada impedia rezar uma Avé Maria

A todos os santos nesse dia

 

A chegada do barco que o trazia

São e salvo dos seis meses de faina

O meu Zé o primo Manel o António nosso vizinho

Que agora iria ver o menino

Que nasceu na sua ausência

 

Vida dura de mulher esposa e mãe

Metade do ano como pai

Na dureza desta vida que aqui se vivia

Tão perto do mar

Felizes ficávamos ao seu chegar

Uma mirada de relance

Uma lágrima que cai

Um soluço abafado

Pela chegada do Pai

segunda-feira, 7 de março de 2022

VIAGEM

Viagens às minhas terras

Correrias por areias finas

Descalço de calças arregaçadas

Neste rio que foi meu

 

Não queria partir

Porque foi aqui que comecei a sorrir

Forças me levaram a admitir

Que o meu amor é teu

 

Voltei em sonhos e caminhadas diferentes

Em sabores de outrora do que te sentes

Por favor não me tentes

O infinito será o céu

 

Escrevo porque me sinto bem

Nesta fuga do passado também

Na memória que se tem

Distante da que se perdeu

 

Acharás tu na tua verdadeira certeza

Que isto que eu escrevo é miudeza

Para mim simples pureza

De alguém que me deu

 

São palavras soltas ao vento

Menos de um milhar mais de um cento

Serás sempre o meu catavento

Por esse que sou eu

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

CAVALO BRAVO

 

Cavalo bravo

Transparente e rebelde

Olhar meigo e selvagem

Cavalo bravo

De correrias nesse verde

Por essa longa paisagem

Cavalo bravo

Tanta felicidade

Me dás liberdade e coragem

Cavalo bravo

Dás-me tanta saudade

Na tua própria tempestade

Cavalo bravo

Sinto perto de ti estabilidade

Nessa linda pelagem

Cavalo bravo

Da minha nação

Onde o escuro é emoção

E o negro solidão

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

P1

 

[PENSAMENTO]



A ferocidade do sabichão que respalda na arena

Que se imagina rei sem coroa em plena cena

Escondido por detrás de uma cortina visível

De um colonialismo desaparecido e miserável

 

Cai em si sem sentir o desprezo de quem vê

 

Comete constantemente o mesmo erro

Dos lambe botas da corte escondida

Nem em terras dos Filipes havia um perro

Do veneno de uma cobra ofendida

 

Nos corredores descobrindo o que lê

 

Ajuda quem não merece

Faz-se importante sem o ser

Chego a pensar que padece

De algo que não desejo dizer

 

Jerico com livros na albarda

Doutor que saiu de fininho

Não vale nada sem a farda

Valha-me Deus tocou o sininho

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

QUERIA TANTO...

  •  
  • ·        Queria tanto…
  • ·        Fechar os olhos e sumir para sempre deste lugar
  • ·        Sentir a brisa do mar no meu corpo e mergulhar
  • ·        Nas trevas dos incompreensíveis
  • ·        Que se julgam mais além dos possíveis
  • ·        Meio de viver e de amar
  • ·        Queria tanto…
  • ·        Sorrir para todos vós que me olham com desdém
  • ·        Seja aqui perto ou mesmo mais além
  • ·        Todos eles reconhecíveis
  • ·        E de certa forma bem amáveis
  • ·        Mesmo longe de casa longe do lar
  • ·        Queria tanto…
  • ·        Adormecer novamente no ventre da minha mãe
  • ·        Sonhar sim sonhar com dias melhores para quem têm
  • ·        Alegria e sonhos lindos dentro de si
  • ·        Sem desdenhar o do alheio para ti
  • ·        E juntos contruir um novo lar

sábado, 10 de julho de 2021

Poema com pigmentações.

 

Escrevo porque sinto essa vontade

Dos sentimentos e dos sabores da vida

São as palavras que movem a Liberdade

E sinto que não foi uma vida perdida

Tenho amigos de todas as cores de todas as raças

Sinto que fui bafejado pela gratidão

Liberto-me isso sim destas mordaças

E atiro as correntes ao chão

No sorriso do cansaço

Num final de dia de exaustão

Na nossa mesa ou no regaço

Julgo que cumprimos a missão

Somos todos diferentes

Somos todos pela mesma causa

Alguns muitas vezes ausentes

Mas sentimo-nos bem nesta pausa

Deus pátria e família

Desígnios de outros tempos

Vai agora um chá de tília

Esperemos por novos ventos


Nota: Dedico ao Grupo de Trabalho do Adriana


domingo, 28 de março de 2021

UM DIA MAIS QUE OUTRO

Nota do Autor

Cheguei a mais uma meta e espero que outras mais venham, cheias de amizade e saúde para ver crescer os meus filhos.

Os dias vão passando e quem diria que estaria neste momento a escrever para todos vós. Sim porque com as maleitas que por aí andam cheguei a pensar que ficaria pelo caminho.

São nada mais nada menos que sessenta anos de muitas experiências que como compreendem ficará para minhas memórias. 

Hoje aqui onde Portugal termina e o mar começa recordo uma terra que fica exatamente no oposto que em muito marcou a minha adolescência Bragança.

Mas é do Lorvão que vos venho falar, uma aldeia escondida entre montanhas pejadas de castanheiros, pinheiros e eucaliptos terra que me viu nascer.

Escrevo para vos contar uma pequena história, leva-me aos anos 60. Devíamos estar em 1967/68, a benjamim da família rondava os três anos e nessa altura resolveu fazer testes para paraquedista e ao lançar-se da janela de um primeiro andar dos altos, ficou roxa, azul e sei lá mais que cores que os demais ficamos todos a olhar sem saber o que fazer. Infelizmente dessa altura só ela ainda está entre nós, sei que amanhã a minha mãe me vai ligar como sempre o fez durante muitos anos, dizendo: - “Filho foi ontem não foi?” onde esteja vai ter que esperar mais algum tempo.

Tantas e tantas histórias e historietas que tenho para contar, mas fica para outro dia.

Deixo isso sim um poema.

 

UM DIA MAIS QUE OUTRO

A manhã está calma muito calma

Nas estradas vazias o vento sopra

E o mar esse no horizonte se espalma

Pelas frechas ele assopra

 

Quem diria que este seria o meu dia

Aqui no quinto virado para esse meu mar

E longe de todos os que eu aplaudia

Resta-me a satisfação de poder sonhar

 

Foram tantos e tantos dias de alegria

Que num poema não cabe tudo

Claro que em alguns eu sofria

Mas considero-me um sortudo

 

E agora aqui sentado vos escrevo

Neste dia muito feliz

Desejo um simples trevo

De quatro pétalas que condiz

 

Amanhã outro dia

Diferente do anterior

Enfim simplesmente sorria

Paz e muito amor

sexta-feira, 19 de março de 2021

PALAVRA

 


Na palavra

A força desta amarra que nos sustenta

O vento sopra

E em parte é ele que nos alimenta

Quem és

Dentro dessa redoma refugiado

Vais de lés a lés

Sinto-me um pouco angustiado

Mas não vês

Nesse teu sorriso vitorioso

Que perdemos

Se não lutarmos em uníssono

Quem seriamos

Se fosse tudo tão fácil

O que diríamos

Amém

Pai

Tantas coisas que ficaram por dizer

Só sei perdi muito em não conhecer

Os teus sonhos e muito do teu ser

Nos passeios pelas palavras ao entardecer

 

Por vezes refugiávamos nesses molhados

Recordações que ficávamos amargurados

Para quem perde alguns dos seus amados

Sabíamos que não voltaremos a olhá-los

 

Foram horas perdidas as que estivemos ausentes

Naqueles anos em Bragança bem quentes

Onde todos sofremos e ficamos doentes

Na alma no coração e nas mentes

 

Partiste sem te vergar

Senti isso no teu olhar

Por isso por tanto te amar

Perdoa-me um dia vou voltar

 

Hoje tão perto da solidão

Do cerrar os olhos e sentir o coração

Gostava de te dar novamente a mão

Enfim serve de alento esta oração


quarta-feira, 11 de novembro de 2020

DEIXEM-ME ENVELHECER

 [Em versão Covid-19]

DEIXEM-ME ENVELHECER

Deixem-me envelhecer sem compromissos e cobranças,

Sem a obrigação de parecer jovem e ser bonito para alguém,

Quero ao meu lado quem me entenda e me ame como eu sou,

Um amor para dividirmos tropeços desta nossa última jornada,

Quero envelhecer com dignidade, com sabedoria e esperança,

Amar minha vida, agradecer pelos dias que ainda me restam,

Eu não quero perder meu tempo precioso com aventuras,

Paixões perniciosas que nada acrescentam e nada valem.

Deixem-me envelhecer com sanidade e discernimento,

Com a certeza de que cumpri meus deveres e minha missão,

Quero aproveitar essa paz merecida para descansar e refletir,

Ter amigos para compartilharmos experiências, conhecimentos,

Quero envelhecer sem temer as rugas e meus cabelos brancos,

Sem frustrações, terminar a etapa final desta minha existência,

Não quero me deixar levar por aparências e vaidades bobas,

Nem me envolver com relações que vão me fazer infeliz.

Deixem-me envelhecer, aceitar a velhice com suas mazelas,

Ter a certeza que minha luta não foi em vão: teve um sentido,

Quero envelhecer sem temer a morte e ter medo da despedida,

Acreditar que a velhice é o retorno de uma viagem, não é o fim,

Não quero ser um exemplo, quero dar um sentido ao meu viver,

Ter serenidade, um sono tranquilo e andar de cabeça erguida,

Fazer somente o que eu gosto, com a sensação de liberdade,

Quero saber envelhecer, ser um velho consciente e feliz!!!


ENTRE MAR...