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sexta-feira, 20 de março de 2015

Ir até ao fim do mundo...


O mundo que nos segue e por vezes foge

As letras que outrora escrevíamos em vão

O sonho que se perdeu na luz da escuridão

O sabor a lima ou a limão

Acentua o gosto no céu-da-boca

Ilumina-nos por entre as trevas

Descalço percorre este caminho

Gritando ao caminheiro

Que com o seu cajado não pára

Segue no seu passo ligeiro

De azul talvez mais claro

Bate no céu lá ao longe

E desaparece na curvatura

Da longa vida da saudade

São sabores

Odores

Tristezas em mão alheia

Que escrevo para ti meu amor

Que nos vamos ver à hora da ceia

E sentados nessa mesa cansados

Das caminhadas deste agora nosso Alentejo

Fitamo-nos aos quatro e abraçados

Adormecemos doutra maneira

Não

De alguma maneira vamos sair

Vamos sim um dia fugir

Nem eu sei bem para onde

Pode ser para o fim do mundo

quinta-feira, 19 de março de 2015

Pai






Sinto a tua falta das palavras
Do saber que incutias em todos nós
O olhar meigo pelas madrugadas
Dos teus netos chamando pelo avós

Barba branca aparada
Andar inconfundível
Uma dor que não sarava
Das percas duma vida

Lutaste e foste vencido
Pela maior das dores
Mas nunca esquecido
Pelos filhos e admiradores

Como o tempo passa
E a todos nós nos consome
Urge ele que já escassa
No leito frio dorme

Nas noites longas em família
Que passávamos de tempos em tempos
Algumas vezes parecia homilia
Outras já estávamos muito lentos

Fazes falta isso tenho a certeza
Sinto falta pura das verdades
Hoje dia de tristeza
Porque sinto muitas saudades.

Aurora!!!






Senti dentro de mim um aperto
Da escrita agonizada do aldrabão
Que de nada saber se diz informado
Roubando a palavra a cada mão

É o mundo na quebra dos sentidos
O que se ouve sem se saber
Dizem-se muito unidos
Mas caem de maduros ao amanhecer

Palavras que o tempo nos consome
Dizeres que o povo outrora respeitava
Olhares amedrontados com fome
Daquilo que se disse e não se amava

Partiu
Deixou no ar o sofrimento de criança
Levou consigo a esperança
Mas não vai voltar

sábado, 26 de julho de 2014

Francisco...


Francisco seu nome
Nasceu de um amor profundo
Corre ao sabor do tempo
Entrou de sorriso neste mundo
Criança de pensar rápido
De fingimentos matreiros
De olhares doces
E de birras constantes
Algumas delirantes
Outras assim a assim
Francisco
Olhar em ziguezague
De corridas repentinas
Respostas rápidas
E muito sabidas
Dos seus quereres
Seus gemidos
Seus afazeres
Partindo tudo
Descobrindo
Enfim

Viver

Alentejo...


Entre os girassóis deste monte
Em que me sento e descanso
Com o meu amor de fronte
Por vezes com algum pranto

Pranto da distancia da família
Olhar fixo no firmamento
Um pensar em Inês ou Lucília
Por vezes até sinto um chamamento

Lá longe onde o sol cai
Onde a estrada se deixa de ver
Aparece a imagem do pai
Que já nos deixou de atender

Passos de miúdos na varanda
Sorriso de orelha a orelha
Nesta terra de boa fama
Onde os bois se pegam de cernelha

Sois da meia-noite em terras bravias
Ares madrugadores
Bando de cotovias
Barulhos de tractores

O vento passa lentamente
Como se quisesse parar
Esse ar benevolente
Ouve-se o seu assobiar

Cantigas de outros tempos
Da faina dos campos
São momentos
São encantos
São lamentos
Sãos descansos

sexta-feira, 7 de março de 2014

Solidão


Perdido no meio do tempo
Solidão atroz desalento
Vou para outra margem
Sim vou só e sem bagagem

Dentro de mim levo o sofrimento
Perdi-me entre o alimento
Levo o amor de tantos vós
E uma ferida atroz

Queria viver para sonhar
Ou sonhar para viver
Mas nada disso consigo
Mesmo Tu sendo meu amigo

Necessito de tempo
Tempo que jamais voltará
Necessito de todos vós
Parto ao deus dará

Não sei o que dizer
A vida é um tormento
Seja ela uma vida de sofrimento
Ou mesmo uma vida de desalento

Dinheiro aos potes
Pequenos como todos vós
Não tenho calotes
Mas uma ferida atroz

Parto sem deixar rasto
Necessito de morrer
Quem sabe para voltar viver
E comer um melhor repasto

Solidão
Num país que me destruí-o
Que me viu nascer
Afinal morrer é isto mesmo

Quero gritar da minha janela
Mas a voz empregada no horizonte
Nas imagens da minha infância
Nem força para olhar o monte

Quero partir mas até isso tenho medo
Não de mim mas dos que ficam
Pequenos e desamparados
Azuis e castanhos

E amigos
Perdoam-me
Forças que partem
Alentos que se invadem
Tristezas vividas
Sinto-me só rodeado de tantos outros
Trabalho para que se a tristeza é isso mesmo
Amigos
Inimigos
Nem sei bem por que será
Que a vida afinal é como é
Um dia deitado outro de pé
Grito esse abafado

Até ao sopé

domingo, 22 de setembro de 2013

Liberdade


Esperança que tinhas partido
Na volta das ondas
Voltas-te
O mar esse revolto em si mesmo
Deixa-te entrar no porto de abrigo
O teu olhar no firmamento prevê tempestade
Mas a esperança essa voltou
Numa chegada existe sempre uma partida
Depois da guerra vem a paz
E sem ela nada fica como antes
Nada fica capaz
De se lembrar dos amigos
Das escadas e dos vãos
Do pão
Até da paz
Essa que partiu o coração
E não te satisfaz
Um sorriso aparece na madrugada
Mesmo que seja fugazmente
Até ser um dia lembrada
Sim a paz
Botas enlameadas
Roupa encardida
E uma fome atroz
De liberdade

Vento de Outono


O vento esse que sopra dentro de mim
Que me transporta as alegrias
Deixando-me ver uma estrada sem fim
O vento esse que sopra dentro de mim
Parte galhos afugenta pensamentos
E leva-me para praias desertas sim

Os salpicos da bruma branca gelada
Na minha cara encarquilhada
Navego neste mar
Nesta encruzilhada

Tu
Que ficas aqui ao meu lado sem dizer nada
Adormeces nos pensamentos
E te perdes por momentos
Despertas sem saber onde estás
Tu
Aqui mesmo ao meu lado
Entre o mar e serra

Aqui mesmo deste lado

Amanhecer


Criei dentro de mim um abismo
Não o do Torga mas um só meu
E ainda hoje eu cismo
Foi a aventura que deus me deu

Terras de cores e cheiros tão diferentes
Gentes que ainda hoje me lembro bem
Foram momentos que ficaram pendentes
Para que um dia as visite no além

Desço os degraus no escuro desta madrugada
As crianças permanecem dormindo
Os pássaros esses rompem pela alvorada
Faz-se dia e espero que seja um dia lindo

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Momentos



São sons perdidos
Cata-ventos
De moinhos partidos
Dores embaladas em sereias
Areias
Meninos risonhos
De olhar molhado
Brincando nas areias
Fazendo castelos
Com várias ameias
Sol
Que queima o meu corpo
Sem contemplações
Sinto-me morto
De vestes e palavras
Mas não de emoções
Vento
Agonia de um só dia
De velas içadas
Terras despedaçadas
De tormentos e agonia
De gritos
Sem liberdade
Abafados pelo tempo
Infeliz do momento
Que sofre a bem sofrer
Numa casa desabitada
Na rua ao relento
E só

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Viagem

 
ZAMORA

Nas paredes da minha casa o branco predomina
Pelas brechas das persianas os raios iluminam o chão
Criando raias douradas e negras como auto-estrada
Mais certas do que as suas contas e sem ilusão

Ao meu lado a escrivaninha onde passo horas sem fim
Nem o pó assenta do uso que lhe dou
Uma folha da mesma cor onde sobressai a tinta negra
Deixada a meio do pensamento
Tudo me dói por dentro deste meu alento
Lá fora nada acontece e tudo amolece
Gentes sem ilusões tão pouco com paixões
Deste Portugal arruinado de convicções
E de tantos e tantos aldrabões
Quero continuar a sonhar com a minha caneta preta
E lentamente volto à escrita sempre preta
Um pouco enviesada e lenta
Escrever o que me vai na alma as alegrias
Para fugir a tantas agonias
Escrevo aos meus filhos dos meus sonhos de outrora
Como percorri este mundo tão belo
Que destruíram tão cedo nesta aurora
Mas escrevo com esta tinta negra na folha branca
E o sorriso entrou no passado e voou
Filhos sem saber o amanhã
Nem tão pouco se irão ler
Mas escrevo com o coração de quem vos ama
E neste Portugal profundo nesta descoberta
De novas gentes de outros sabores sinto dor
Mas vou escrevendo
Para os distantes o tempo que nos separou
Aos presentes o dia de amanhã
Mas cabem todos dentro deste pequeno coração
Que estará aqui sempre estendo a mão

Recordo a minha primeira grande viagem de comboio
Era um sonho sobre carris de mochila e com tempo
Levava na bagagem uma mão cheia de nada
Na outra a esperança do conhecimento
Ao passar a fronteira de passaporte era livre
O vento que desejava comer na janela
Mostrava-me pela primeira vez o outro mundo
Jovens de todas as raças de todas as cores
Misturavam-se nos corredores
A música era disforme conforme o compartimento
As alegrias transbordavam nos sorrisos
Em comum as mochilas
Ficaria conhecido como o corredor da pera

Nota: A viagem descrita aconteceu em 1979 de Zamora a Lérida (Lleida). Foram as férias escolares mais longas que terminaram em 1982 precisamente no dia 10 de Maio quando entrei para fileiras da Força Aérea Portuguesa.

ENTRE MAR...