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sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Frio


Acordei da noite fria
Onde o vento assobia
E no horizonte acalmia
Me tentava dizer para onde eu ia

Desci pela rua despida de gente
Não via nada a minha frente
Deixei-me levar pela mente
Era eu o sol o vento e de repente

A música entoava
Sons de balada
Acordei

terça-feira, 19 de março de 2019

Outros dias



Fugiu o tempo de menino
Que descalço percorria as ruas estreitas
E ao longe mergulhava no rio limpo
Bebia e brincava ouvindo as modas das lavadeiras
Que risonhas coravam a roupa branca
Entre murmúrios inaudíveis para criança
Era o meu rio como o tratávamos
Onde o peixe fugia com a chegada da maré
E a água salgada se misturava nas minhas mãos
Do outro lado da vila a escola que tantas recordações me traz
O pião os botões aos molhos da minha tia
Os berlindes e óleo fígado de bacalhau uaauauu que dia
Ainda hoje ouço a cana-da-índia a bater no quadro escuro
As correrias de volta das oliveiras
E ao entardecer o jogo das escondidas numa praça cheia de gente
Ali mesmo o cheiro no ar das espigas de domingo
Que nos outros dias eram simplesmente sonhos
O jogo das damas dos mais velhos
O diário de Coimbra que passava de mão em mão
E o acender das luzes que indicavam o recolher
Caía em mim numa cama de penas onde me escondia
Nos dias que meu tio não adormecia
Eu caía …

Nota: 
Vila de Montemor-o-Velho
Rio Mondego
Escola Primária
Espigas doces

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Ventos gelados...




Fui embora sem dizer nada
Estava frio do outro lado muito frio
Olhei para longe havia neve em camada
O vento esse sentia-se pelo assobio

As flores brancas das amendoeiras
Encostadas ao verde dos castanheiros
Eram as mais belas paisagens das beiras
Mas sempre me faziam lembrar os sobreiros

Água límpida gelada e cheia de bravura
Nestes socalcos graníticos
Como é bom sentir esta frescura
Esquecer por algum tempo os eucaliptos

Sentei-me fitando o horizonte
Uma águia-real lá longe esvoaçava
Procurando a sua presa de monte em monte
Fitou-a já não lhe escapava

Por momentos fechei os olhos e senti a sinfonia
Do vento entre as arvores percorrendo montanhas
Só aqui se perdia a minha ínfima agonia
Dos homens e das suas manhas

O sol flagelava-me sem magoar
Pela distância entre o mar e serra
Que permitia que o meu sonhar
Viria a morrer nesta terra

Pedra sobre pedra
Montanhas que fazem parte do meu País
Onde a liberdade nunca se perdeu
Foi aqui que eu sempre quis

Pertencer no meio de tudo o que ardeu
Terra cinzenta de cheiro queimado
Vozes agonizadas de um povo mal tratado
Risos dos lisboetas entrincheirados

Gritos de revolta e muito irados
Assobio e a montanha responde
Escrevo a agonia do meu peito
Portugal se esqueceu do meu leito

E vou só pela calçada desta ponte
Caio em mim dormindo neste quarto abafado
Numa noite como tantas outras que vive
No trinar duma guitarra e dum fado
Acordo e digo para mim estou vivo

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Até breve..Alentejo



Parti
Levo no meu coração
Uma mão cheia de momentos
Afectos e muitos sentimentos
Nestes olhos já maduros
Não me recordo de tempos escuros
Parti
As almas vivas desse Alentejo
As suas gentes para lá do Tejo
Entre o Guadiana e o mar
Nestes momentos simplesmente sonhar
Parti
Mas decerto que vou voltar
Aos mesmos lugares ao mesmo altar
Pedral será sempre a catedral
Onde o cante e a degustação são fora do normal
Parti
Entre um choro de criança
Mas a vida é feita de mudança
Agora mais perto do mar
Volto a sonhar


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Chamas e chagas!

Queria tanto estar por perto para me sentires
Olhar-te nos olhos sem me veres
Sorrir para ti entre as nuvens
Num calor que tarda em partir
Vento esse que barafusta
Assobia em dias de agonia
Esconde-se pela noite dentro tímido
De madrugada por entre as frinchas da janela
Abraça-me no meu imaginário
Por tudo aquilo que sonho e não consigo
Dou conta em mim no mesmo sonho
A solidão
Lentamente estendo o meu braço
Sem te acordar acaricio o teu corpo
Enroscas-te sem medo
Adormeço
Quando acordo a cama está fria
Partis-te pela penumbra ainda escondida entre portas
Aguardo a qualquer instante um toque para me levantar
Eles ali bem perto dão mais uma volta na cama
E o dia está prestes a começar
O sonho esse partiu quando senti frio
Ficou o sabor do teu beijo
Que perdurará até ao teu regresso lá pela tardinha
Depois vem mais um dia
Somente a solidão essa se agarra aos meus ossos
Como carraça na pele do cão que há muito deixou de latir
O vento de Inverno que veio de mansinho
Para acalmar um verão extenso e calorento
Sim posso por enquanto sonhar
Mas não posso dizer ao Centeno
Para não me cobrar
A solidão
De uma mão cheia de nada
Do lado de lá da rua
Sem sorrisos nem mimos
O dia vai passar

E pela janela da sala espero

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O meu...

Palavras encostadas no vento
Brisa que me refresca a alma
Solidão que sinto por dentro
Nestas noites de calma

Não consigo sonhar
Porque ele foge da minha mente
E é esse vento constante
Vai-me dando força para caminhar

Sento-me e entro nos quadros que me rodeiam
Sai das águas pelo meio
E de moinhos de outrora
Para cair no abismo do alto da casa
E sonho mas o vento não deixa
Lá ao fundo a passagem secreta
Deveras aberta
Para me levar a parte incerta
É o vento na sua bolina
Nunca desaparece
E me azucrina

quarta-feira, 19 de abril de 2017

[Dream]


Correria por entre prados verdejantes
E uns quantos amarelados
Não muito distantes
Do outro lado da rua
Com roupa semi-nua
De lantejoulas pendentes
De curvas já decadentes
Duma vida dura
Mas sempre pura
Correria entre pensamentos
Doravante instrumentos
De política de contentamentos
Sem fim feliz à vista
Entretanto na dobra da esquina
Ali mesmo afinada
Tocava uma viola
Que me entrava no ouvido
E do outro lado zunia
Era um dedilhar acrobático
Não de um momento sabático
Ou tresloucado
Era simplesmente
Maravilhoso e adormeci
E na outra vida tinha asas
Asas brancas enormes
E voava sem fim
Um sonho que perdi
Logo que bateram à porta
Era o carteiro
Das boas novas
Uma carta com letras miudinhas
Todas certinhas
E lá dentro
A tristeza de um povo
Que vive para pagar

Sem poder chorar

quinta-feira, 30 de março de 2017

Avião


Como seria se eu voasse
Para tão longe para lá do imaginário
Se as minhas asas não se derretessem 
E a minha retina deixasse 
Se eu voasse
Os meus sonhos na palma da mão
Duma vida que terminou 
Um olhar bem diferente
Salto que não dei e findou
Se eu voasse
Iria sim descobrir o mundo
Agarrar-te pela mão 
E deixar-me cair neste abismo
De olhos fechados
E sem heroísmo
Se eu voasse... 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Quarenta e sete.


De manhã pela fresquinha
Nesta casa vazia e sem ti
Ontem estava tão quentinha
Hoje estás longe e nem dormi
Amanhã o sol voltará a nascer
Com nuvens negras pelo meio
Gostava tanto ver-te adormecer
Neste ninho que é o teu leito
Eles sorriem sem saber
Que a vida dá muitos saltos
Afinal tem mesmo é de ler
Para que ultrapassem os percalços
O sol a lua o vento a tempestade
Lidamos com eles todos os dias
Mas que todos sentimos é mesmo saudade
Vão longe os anos setenta
Das brincadeiras de criança
Mais perto dos cinquenta
Mas na alma muita lembrança
Foram tranças negras de certeza
Passaram a loiras
Outras improvisadas mescladas
E por vezes até doiradas
Na mesa uma vela acesa
Um prato despido de comida
No canto do olho uma lágrima
Que escorrega só com ida

Saudade

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Quando o frio aperta.

Quando o frio aperta.

Nesta cadeira gelada por dentro
Palavras tento encontrar de alento
Para lá da janela da sala
Onde o sol não queima
E o vento esse corta
Gelado impiedoso
Sem medo do medo
Somente só
Em terras distantes
Por momentos ausentes
E de certezas duvidosas
Do que ouvimos e sentimos
Para lá do sol
Cerro os meus olhos
E distancio-me da vida
E sinto a tua voz aqui
Que me dá a força
Eles no abc da vida
O sino toca entre muralhas empedradas
Com a história da nossa vida
Caminheiros e muitas vezes escuteiros
Entre laço e o apego à vida
Essa que jamais será perdida
Poderei dizer muito vivida
Subo as escadas e procuro o teu cheiro
Que ficou nos lençóis da nossa cama
Estamos a caminho de fevereiro
E lá fora começa aparecer a lama
 Sol esse endiabrado ilumina sem aquecer
Na soleira da casa o frio é de prever
Aguardo o dia pacientemente
Que o comboio apite
E o teu sorriso apareça


[só em casa]

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Último dia.


Corri de pés molhados na areia fina do meu mar

Senti dentro de mim o vento que bulia sem parar

E no olhar duma criança que já partiu

Tempo para ver os meus amores a respirar

 

Tantas e tantas ondas chocam sobre os meus pés

E continuou a percorrer este me país de lés a lés

E a palavra que se escreve ele não viu

Lá longe um dia descansará nos sopés

 

E na minha tumba contra a minha vontade

Na lápide que se deslumbre

Aqui se deitou nunca mais partiu

Um fogo, coração, uma alma que arde

ENTRE MAR...