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domingo, 16 de agosto de 2020

Partiu *

Quando a lágrima aparece sem saber de onde vem

E no cerrar dos olhos tempos lindos aparecem

A dor invade o coração por se perder alguém

No seu abrir todos eles desaparecem 


Vida cruel que temos de enfrentar

Ruas a pique que nos deixam cansados

Olhares perdidos no mar arrebentar

Filhos que ficam com saudades e calados


O sino toca três vezes e dá a tristeza

E nos seus intervalos sente-se amargura

De quem será do outro lado se reza

Ouve-se zumbidos de alguma ternura


Partiu


Deixou palavras que nos encantam

Sorrisos perdidos em noites de harmonia

E pelas ruas árvores que se levantam

De uma poda em dias de sinfonia


Aí doença atroz que nos aflige

Aparece pela noite calada

Entranha-se sem saber onde

E dobra-nos pela madrugada


Partiu


Sem aviso sem nota de rodapé

Sem o olhar sem nada nem ele ficou de pé

Mas ficou o seu legado o seu amor a sua ternura

O recordamos como Homem com grande fervura

Bem Haja


*Carlos Lucas 16/08/2020


terça-feira, 23 de junho de 2020

Além bem longe...




Uma imagem surge desfocada no tempo
Remorsos dos anos quem sabe sessenta
Tento que se lhe leve com o vento
Esta poeira que nunca mais assenta

Um filho rebelde com a sua rebeldia
Olhar tão terno que sou incapaz
Quem sabe se algum dia
Nem que seja quando tenha paz

Nos seus rasgos de pinturas
Que herdou da sua avó
Sinto neles muita ternura
E por vezes se me dá um nó

Vivo sempre a correr
Como se fosse uma maratona
Mas os sonhos me fazem sofrer
E memórias antigas vêm à tona

Quem me dera parar o tempo
Quem me dera ser o seu pensamento
Quem me dera um sorriso por dentro
Quem me leva este sofrimento

O vento esse que entra de mansinho
Pela janela virada para o mar
Batendo na roupa devagarinho
E na minha cara me faz suar

Dizem que vem do deserto
Com esse brilho cintilante
Quente agreste aqui bem perto
Olho o céu e vejo-o tão brilhante

Um passeio para arrefecer
Com vistas para este mar
É um fim ao entardecer
Viagem que me veio chamar

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Um dia diferente...



Um dia diferente entre outros tantos
De muitos dias diferentes antes do tempo
Em que deixei de sonhar sobre tantos pontos
E outros que deixei de lado ao sabor do vento
Voltei entre paredes confinado desse tempo
Que me deixou a pensar em mim mesmo
Sim venho com mais alento
Que a vida dura quando dura e se parte sem dizer adeus
Mas quem sou eu entre os mortais com morte anunciada
Agora sem medo se alguma vez o tenha tido
Agora com mais esperança se a tivesse perdido
Agora acompanhado se é que estive alguma vez
Distante dos meus olhares mas juntos no coração
Solitários
Mas não desaparecidos

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Frio


Acordei da noite fria
Onde o vento assobia
E no horizonte acalmia
Me tentava dizer para onde eu ia

Desci pela rua despida de gente
Não via nada a minha frente
Deixei-me levar pela mente
Era eu o sol o vento e de repente

A música entoava
Sons de balada
Acordei

terça-feira, 19 de março de 2019

Outros dias



Fugiu o tempo de menino
Que descalço percorria as ruas estreitas
E ao longe mergulhava no rio limpo
Bebia e brincava ouvindo as modas das lavadeiras
Que risonhas coravam a roupa branca
Entre murmúrios inaudíveis para criança
Era o meu rio como o tratávamos
Onde o peixe fugia com a chegada da maré
E a água salgada se misturava nas minhas mãos
Do outro lado da vila a escola que tantas recordações me traz
O pião os botões aos molhos da minha tia
Os berlindes e óleo fígado de bacalhau uaauauu que dia
Ainda hoje ouço a cana-da-índia a bater no quadro escuro
As correrias de volta das oliveiras
E ao entardecer o jogo das escondidas numa praça cheia de gente
Ali mesmo o cheiro no ar das espigas de domingo
Que nos outros dias eram simplesmente sonhos
O jogo das damas dos mais velhos
O diário de Coimbra que passava de mão em mão
E o acender das luzes que indicavam o recolher
Caía em mim numa cama de penas onde me escondia
Nos dias que meu tio não adormecia
Eu caía …

Nota: 
Vila de Montemor-o-Velho
Rio Mondego
Escola Primária
Espigas doces

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Ventos gelados...




Fui embora sem dizer nada
Estava frio do outro lado muito frio
Olhei para longe havia neve em camada
O vento esse sentia-se pelo assobio

As flores brancas das amendoeiras
Encostadas ao verde dos castanheiros
Eram as mais belas paisagens das beiras
Mas sempre me faziam lembrar os sobreiros

Água límpida gelada e cheia de bravura
Nestes socalcos graníticos
Como é bom sentir esta frescura
Esquecer por algum tempo os eucaliptos

Sentei-me fitando o horizonte
Uma águia-real lá longe esvoaçava
Procurando a sua presa de monte em monte
Fitou-a já não lhe escapava

Por momentos fechei os olhos e senti a sinfonia
Do vento entre as arvores percorrendo montanhas
Só aqui se perdia a minha ínfima agonia
Dos homens e das suas manhas

O sol flagelava-me sem magoar
Pela distância entre o mar e serra
Que permitia que o meu sonhar
Viria a morrer nesta terra

Pedra sobre pedra
Montanhas que fazem parte do meu País
Onde a liberdade nunca se perdeu
Foi aqui que eu sempre quis

Pertencer no meio de tudo o que ardeu
Terra cinzenta de cheiro queimado
Vozes agonizadas de um povo mal tratado
Risos dos lisboetas entrincheirados

Gritos de revolta e muito irados
Assobio e a montanha responde
Escrevo a agonia do meu peito
Portugal se esqueceu do meu leito

E vou só pela calçada desta ponte
Caio em mim dormindo neste quarto abafado
Numa noite como tantas outras que vive
No trinar duma guitarra e dum fado
Acordo e digo para mim estou vivo

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Até breve..Alentejo



Parti
Levo no meu coração
Uma mão cheia de momentos
Afectos e muitos sentimentos
Nestes olhos já maduros
Não me recordo de tempos escuros
Parti
As almas vivas desse Alentejo
As suas gentes para lá do Tejo
Entre o Guadiana e o mar
Nestes momentos simplesmente sonhar
Parti
Mas decerto que vou voltar
Aos mesmos lugares ao mesmo altar
Pedral será sempre a catedral
Onde o cante e a degustação são fora do normal
Parti
Entre um choro de criança
Mas a vida é feita de mudança
Agora mais perto do mar
Volto a sonhar


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Chamas e chagas!

Queria tanto estar por perto para me sentires
Olhar-te nos olhos sem me veres
Sorrir para ti entre as nuvens
Num calor que tarda em partir
Vento esse que barafusta
Assobia em dias de agonia
Esconde-se pela noite dentro tímido
De madrugada por entre as frinchas da janela
Abraça-me no meu imaginário
Por tudo aquilo que sonho e não consigo
Dou conta em mim no mesmo sonho
A solidão
Lentamente estendo o meu braço
Sem te acordar acaricio o teu corpo
Enroscas-te sem medo
Adormeço
Quando acordo a cama está fria
Partis-te pela penumbra ainda escondida entre portas
Aguardo a qualquer instante um toque para me levantar
Eles ali bem perto dão mais uma volta na cama
E o dia está prestes a começar
O sonho esse partiu quando senti frio
Ficou o sabor do teu beijo
Que perdurará até ao teu regresso lá pela tardinha
Depois vem mais um dia
Somente a solidão essa se agarra aos meus ossos
Como carraça na pele do cão que há muito deixou de latir
O vento de Inverno que veio de mansinho
Para acalmar um verão extenso e calorento
Sim posso por enquanto sonhar
Mas não posso dizer ao Centeno
Para não me cobrar
A solidão
De uma mão cheia de nada
Do lado de lá da rua
Sem sorrisos nem mimos
O dia vai passar

E pela janela da sala espero

quarta-feira, 7 de junho de 2017

O meu...

Palavras encostadas no vento
Brisa que me refresca a alma
Solidão que sinto por dentro
Nestas noites de calma

Não consigo sonhar
Porque ele foge da minha mente
E é esse vento constante
Vai-me dando força para caminhar

Sento-me e entro nos quadros que me rodeiam
Sai das águas pelo meio
E de moinhos de outrora
Para cair no abismo do alto da casa
E sonho mas o vento não deixa
Lá ao fundo a passagem secreta
Deveras aberta
Para me levar a parte incerta
É o vento na sua bolina
Nunca desaparece
E me azucrina

quarta-feira, 19 de abril de 2017

[Dream]


Correria por entre prados verdejantes
E uns quantos amarelados
Não muito distantes
Do outro lado da rua
Com roupa semi-nua
De lantejoulas pendentes
De curvas já decadentes
Duma vida dura
Mas sempre pura
Correria entre pensamentos
Doravante instrumentos
De política de contentamentos
Sem fim feliz à vista
Entretanto na dobra da esquina
Ali mesmo afinada
Tocava uma viola
Que me entrava no ouvido
E do outro lado zunia
Era um dedilhar acrobático
Não de um momento sabático
Ou tresloucado
Era simplesmente
Maravilhoso e adormeci
E na outra vida tinha asas
Asas brancas enormes
E voava sem fim
Um sonho que perdi
Logo que bateram à porta
Era o carteiro
Das boas novas
Uma carta com letras miudinhas
Todas certinhas
E lá dentro
A tristeza de um povo
Que vive para pagar

Sem poder chorar

quinta-feira, 30 de março de 2017

Avião


Como seria se eu voasse
Para tão longe para lá do imaginário
Se as minhas asas não se derretessem 
E a minha retina deixasse 
Se eu voasse
Os meus sonhos na palma da mão
Duma vida que terminou 
Um olhar bem diferente
Salto que não dei e findou
Se eu voasse
Iria sim descobrir o mundo
Agarrar-te pela mão 
E deixar-me cair neste abismo
De olhos fechados
E sem heroísmo
Se eu voasse... 

ENTRE MAR...