Feliz Natal

Feliz Natal

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

[TU]



Fui-me embora descalço pela calçada
Numa noite fria como a de hoje
E nesta melancolia abafada
Bocejo respiro e vou para longe
Como seria se estivesses entre os meus braços
No aconchego do íntimo entre nós
Antes faço um retrato a lápis e com traços
Imagino nas minhas mãos todos os prós
De cara rosada e sorriso malandro
Chegas e vês no meu olhar
A falta de um abraço e de um encanto
Sobre a cama sentimo-nos sós
Do outro lado em seu leito aninhados
Dormem como se o mundo termina-se ali
Sem chatices tormentos nem ais
Esses que vencemos demoradamente
Para que tudo não tenha o mesmo fim
O frio esse pirou-se de vez
Desceu as escadas docemente
Foi pela bolina da madrugada
E desapareceu da nossa mente
Caí cerrei os olhos e deixei-me ir
Numa barca de outros tempos
Numa manhã de nevoeira como tantas outras
Mas diferente
Estavas aqui ao meu lado

E sorris-te

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Alentejo desaparecido


Na terra cansada
Onde a enxada fura com a força do homem
Os carreiros de cultivo que o consomem
Na terra já arada
Deixa para trás horas de ardor
Debaixo de um intenso calor
Na terra sem fim
Onde se adormece de cansaço

Com pouco de água no regaço

Mar dos sonhos


Fui para dentro de uma onda
E no sufoco da minha própria agonia
Queria seguir mas não podia
Porque todo o ar me faltava
O olhar se fechava
E eu ali no meio de tanta água
Vindo de dentro unicamente pedia
Que esta água me levasse
Para fundo e que tudo acabasse
Eis que sol entrou entre a espuma branca
Me abraçou
Deixando-me tão feliz
Sempre foi o que eu quis
E para lá das dunas
Sentado como nada fosse
Um menino brincava
Esperando a minha chegada
Agarrei-o e num abraço forte
Senti de novo a vida
Foi a minha sorte

Ele esperar por mim 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Água benta para minha cura

Escrevo para adormecer sobre estes lençóis quentes dum coração pequeno que na sua pequenez se enrosca na sua própria solidão.


Vem de dentro um sopro sem mágoa
Um sussurro que embate numa parede fria
Respirar compassado fugindo para uma lagoa
Lavando depois a mãos numa grande pia
Não sei para onde vou
Nem sei se quero ir
Mas um dia se sonhou
Que talvez partiria
Almas amarguradas
Olhares
Mentes transtornadas
Revolta e lares
Belisco-me para acordar deste sonho
Procuro nas palavras soltas a solução
Nem sei se quero ir
Se fico sem coração
Onda que desejo surfar
Caminhos e passagens soberbas
Um mundo sempre a lutar
Gritos que veem das trevas
Ó mar
Revolta dos tempos modernos
Gritos abafados pela agonia
E ao longe ouve-se os compassos
Duma linda sinfonia
Caio em mim nesta cama fria
Ouve-se um ligeiro toque na porta
Salto e ela sorria
Era miragem solta
E a escuridão reaparece
Não sei se quero ir
Dos vales da minha terra
O cheiro de castanhas
O olhar da serra
E as ovelhas prenhas
Musgo verde de liberdade
Riachos de água pura
Será simplesmente saudade

Água benta para minha cura

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Vazio...


Sentir uma suave nota de música cristalina
Um dedilhar sobre cordas afinadas
Sentir no ar a saudade nunca perdida
E encontrar o sorriso na mente confinada

Este mundo onde nos encontramos na distância
Nas estradas de diferentes cores
Já lá vai o tempo da ganância
Por vezes só sentimos pequenas dores

Na mesa o lugar sempre vago
Ouvido atendo à campainha
Não passa do barulho do vizinho do lado
Crença saudade paixão amor
Tudo isso bem misturado
Numa panela sem cor

Esta vida amargurada
Criei dentro de mim mil sonhos
E outros tantos que por aí vagueiam
Por vezes até parecemos uns tontos
Mas serás sempre a minha sereia

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Olhares


A noite escura chega fria e despida
O vento assobia do lado de lá da rua
Tiro um bilhete do autocarro só de ida
Para nenhures da minha loucura

Um estalo na costela já dorida
Grito abafado com medo da agonia
Um amor que sangra de uma ferida
Da perseguição não pedida

Ai que me dói o coração
Ai que nem sei quem sou
Ai que morro pela devoção

Ai que me vou

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Estudante...


A noite essa escura e sem medo cai
Ouço passos na calçada despida
De vez enquanto lá sai um aí
Seja de dor ou simplesmente de ida

Sorrisos embrulhados com batimentos
Botas cansadas de tanto bailar
Não...hoje não há sofrimentos
É o primeiro dia vamos cantar

A música avança ruidosa e desafinada
Mas pelo meio por vezes fica afinada
Sabe-se lá onde já a ouvi
Talvez um dia que estava mais perto de mim

Dias de um estudante perdido na cidade
Ou talvez deseje ser encorajado
Para não falhar nesta idade
Em que se encontra mesmo encalhado

Vai todo de lado
Meio empenado
Ao seu lado vestido de preto
Troteia um soneto

Que em tempos nos lembrávamos e agora não

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

[A]deus Beja


O [A]deus…
Na poeira da calçada sufocam as lágrimas
Na inquietude dum coração destroçado
Na partida que se aproxima impiedosa
Na estrada que te queima a alma
Tu que resistes ao calor intenso da pradaria
Onde o branco e azul se destaca no horizonte
Entre um gaspacho fresco com carapau
Que sabe a pouco na tua ausência
Adeus Beja
Levo no coração os teus humores
Na alma algo que não conhecia
Pessoas gentes

Adeus

sábado, 14 de maio de 2016

Tardes Ribatejanas


Vento que te impede de voar
Vento que te ajuda a adormecer
Vento que trás musica de encantar
Vento e só vento
Uma tarde como tantas outras
No sossego desta casa
No emaranhado de palavras soltas
Que pouco a pouco se vaza
Procuro uma música desaparecida
Duns sons que outrora ouvira
Entre o desperta de um sonho
E dum chilrear de cotovia
Cerro os meus olhos e descanso
Ouço os passos de uma criança
Numa cadeira onde dou balanço
E no ir e vir olho a Lua e o terraço
E lá longe o mar esse manso
Uma vela empurrada pelo vento
Umas quantas azinhas pelo ar a esvoaçar
Na procura de alimento e não de lar
Esse mesmo por detrás do terraço
Onde a criança brinca e volta ao meu regaço
Nos seus cabelos lisos
Eu me revejo
Afinal já fui criança
No seu olhar meigo e maroto
Ora parado ou mesmo solto
Procura por debaixo da mesa
Um brinquedo mesmo pequeno
Mas sem medo
Tropeça e um gemido sai
Assim são as tardes no Ribatejo

Aqui mesmo por detrás do terraço

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Saudade...

Saudade

Um perfume no ar me agrada
No olhar muito mais atento
Não tenho medo de nenhuma praga
Será esse o meu desalento

Não eu sei bem o que quero
E muito bem onde procurar
Vou procurar um bolero
E dançar com o meu par

Ali ao lado os meninos pequenos
De gravata a condizer
De olhar bem arregalados
Um dia também vão crescer

Desejo um monte bem no monte
Não para me esconder
Para ser feliz e beber da fonte

E estar junto para te atender

Um lugar no monte


Um olhar no meio do nada
A ilusão do saber quase tudo
Esta tarde está bem abafada
No sótão há lençóis de veludo

Ao longe sente-se o sino a falar
Do tempo que ninguém padece
No beco há sussurrar
Da festa que o povo carece

Há momentos diferentes na vida
Olhares perdidos no ar
Viagens de uma só ida
Amores sabores a pairar

Degraus que se descem lentamente
Ao sabor desse próprio momento
Abraços afagados deliberadamente
Fugindo ao seu próprio tormento

Em cada palavra forte e segura
Duma criança que deseja brincar
No seu sorriso procura
O aval para continuar

A tarde essa avança sem parar
Só esperando os seus amores
As horas não tardam a findar

A mesa cheia de sabores

sábado, 26 de março de 2016

AJAL

Sinto dentro de mim a mágoa de vos ter perdido
Era noite quando soube o que acontecera
Um jantar especial que afinal não terminou
Porque pelo Norte resolveste partir
Era uma costela uma alma um sorriso que partiu fora de tempo
Uma dor que nunca sarou e que muitos não conseguem entender
Mas o tempo esse corre aceleradamente e sete anos depois
A mesma mágoa diferente mas também sentida
A casa essa ficaria para sempre despida de gente
Porque os que por cá ficaram sós avançam na escuridão
Perderam carne da própria carne mas seguem em frente
Ficaram com os momentos passados que ainda hoje vagueiam
Mas o mundo não parava e ciclicamente partiu mais um
O porta-estandarte que nos unia que nunca virou a cara
Recordo como o lutador mesmo com a sua própria vida
No seu sofrimento abafado partiu tudo estremeceu
Não houve hinos nem bandeiras e se as houvesse de vermelho se tingiam
Herói caiu de pé sem nunca se ajoelhar
E nesta estrada tão estreita com tantas ratoeiras
Partes tu sem dizer nada sem um lamento nem sofrimento
No teu dormitar sereno como tanto querias
Afinal desceste ao povoado entre milho e arroz
Descobriste o amor e por eles lutas-te
Agora as lágrimas essas secaram e dentro de mim à dor
A porta está aberta e lá ao fundo vejo-vos
Reunidos em mármore gelado onde o pó chegou
Que a todos vós levou sem nos perguntar se podia
Afinal o Pai assim ditou
"Do pó viemos e ao pó voltaremos"

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Irrealismo do ser...

The Kid

Nas profundezas do irrealismo puro
Das minhas fraquezas doravante
Será nelas que me seguro
Nestas quadras para um trovante

Gritei de dentro de mim e ninguém me ouviu
Respirei com todas as minhas forças
Quem me entendia nunca o soube
Partiu algum tempo numa manada de corças

Sentir que o chão desaparece a olhos vistos
Que essa alma jovem à muito que te deixou
As dores são mais do que dores e menisco

São asas que deixaram e o tempo findou

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

LIBERDADE DA PALAVRA


A cada momento que passa no meu imaginário
Da criança que dentro de mim brinca às palavras
Um sonho voltando à realidade do meu diário
Expressão de Liberdade sem amarras

Sem sofrimento dor ou paixão
Até que chegue esse que me levará entre tábuas
Querendo somente viver com a tua mão
Onde nem lágrimas nem cânticos ouvirei

Deitado de braços cruzados nada pedirei
O sol esse que teime em partir em tardes de inverno
Que me aquece a alma e me deixa feliz
“pois é bebe” benjamim da família que sorri
De tantas marotices ter praticado
Hoje depois de horas sem fio em espera
Em corredores de dores tamanhas
E de paredes todas da mesma cor
Onde se sente nos ossos a dor

O sol voltou a roupa esvoaça amarrada
Soltando o molhado entranhado nas suas fibras
Mas sem liberdade de voar
Seja para algum lugar que tenha em mente
Longe do pensamento
Longe das gentes
Em qualquer lugar perto do mar
Turbulento como ambos gostamos

De sentir a LIBERDADE

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Navegar no sonho


Na distância de um braço ali mesmo ao meu lado
No beiral chilreando a todo o momento
Do dia que corre um pouco abafado
Será frio fome ou sede ou só mesmo lamento

Madrugada igual a tantas outras
Diferente pela luz que entra pelas frinchas
Reflexo no centro do quarto
No momento de acordar e estar farto
De estar só aqui na distância do tempo
Onde a corrente te ilumina
Mesmo em pleno dia
Á beira mar do teu imaginário
Ou simplesmente matinal
Diferente do presente
Numa viela de calçada portuguesa
Onde os toiros passarão naquele dia
Igual a tantos outros de anos anteriores
Mas diferente este ano pela tua presença
Como é bom sonhar neste mundo
Onde tudo corre de feição aos políticos
E nós de mãos atadas ao sistema
Embarcamos em naus sem remos
De velas desfraldadas pela tormenta
Sem rumo nem terra a vista
Eu o mar e o teu olhar
Adormeço e deixo-me navegar

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A voz de minha mãe...


A chuva de mansinho pelo caminho se passeia
Descendo vagarosamente pela calçada
Da minha rua ali mesmo à saída da porta
Do lado de fora do coração que a suporta
As viagens de pequeno entre sonho e realidade
Pelos montes de castanheiros e musgo
Que nesta altura estavam pintados de verde
Na encosta do meu imaginário
Ali sim sentia-me na plena liberdade
Onde os deuses me falavam e num eco distante
O meu nome se ouvia
Lá ao fundo junto ao coreto onde brincava
Na ribeira onde os manéis apanhavam enguias
O Sol esse era o único que sorria
Olhei para sapatos de domingo
E o sorriso partiu
Afinal teria de descer à terra

E ouvir a voz de minha mãe

sábado, 2 de janeiro de 2016

Folhas caídas





Caíram castanhas e molhadas
Afugentadas pelo vento do norte
Ficaram no chão amontoadas
Simplesmente à sua sorte

Foram verdes e risonhas lá no pedestal
No cume das árvores ao meu redor
Por vezes na noite celestial
Abanavam sem pudor

Caíram assim de mansinho
Silenciosamente sem dor
Umas por ali outras no caminho
Esvoaçam sempre que sentia vapor

Agora amarguradas
E muito enlameadas
De mãos dadas
Seguiam o seu caminho…

Passageiro